Domingo, 1 de Abril de 2007
35 anos depois...

É verdade, parece que foi hontem.

É o chamado dia dos enganos,mas neste dia,faz exactamente hoje 35 anos, parti para Angola,não de Férias mas para uma guerra que me obrigaram a fazer.

Pensei em fugir, mas não tive coragem,não de fugir mas de ter que perder a companhia dos meus para sempre.

Nunca pensei, eu e muitos camaradas, que o 25 de Abril ia acontecer.Fugir na altura, éra sinal de nunca mais podermos voltar.

Ir para a Guerra éra uma incógnita,podiamos voltar ou não. Podiamos voltar sim,estropiados ou mortos, foi uma aposta que fizemos, ter a possibilidade de com um pouco de sorte,voltar-mos.

Com tudo de mau que aconteceu,voltei, eu e todos os que embarcamos á precisamente 35 anos.

Tivemos sorte...outros que partiram com as mesmas ideias, ficaram, ficaram para sempre enterrados no capim de África,outros voltaram envoltos numa murtalha.

Para muitos companheiros que não voltaram como eu, fica a minha homenagem e que Deus vos tenha acolhido no seu seio.

Uma Guerra em que os que mais sofreram,foram os familiares que cá ficaram, eles sim, Pais e Mães, irmãos,namoradas, esposas e filhos,foram os grandes herois de uma Guerra sem sentido.

Nesta maldita guerra perdi amigos,nunca mais os vi,guardo deles a imagem de quando me despedi deles um dia.

Recordo um amigo,um colega de trabalho. No dia em que fui mobilizado,cheguei a casa e a noticia que me esperava éra de que o meu amigo Paraiso Manuel tinha morrido na Guiné...

Não tive coragem de dizer em casa que passados alguns dias estaria eu de abalada e que a minha vida ia depender da sorte.

Abril, abriu as portas do fim do colonialismo e com ele o fim de jovens a embarcar, com destino incerto.

Passados 35 anos, ainda sonho com a minha vida na corda bamba,onde a vida e a morte, estavam sempre presentes, ainda tenho medos que me assaltam principalmente de noite,ainda hoje acordo a saltar das viaturas em movimento, ainda hoje acordo com o medo por companhia na forma de tranpiração.

Mas valeu a pena o 25 de Abril.

O MEU FILHO JÁ NÃO FOI PARA A GUERRA.

JL


música: GRANDOLA VILA MORENA

publicado por joselessa às 23:44
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4 comentários:
De cindamoledo a 2 de Abril de 2007 às 14:16
Estou consigo, pois sou mulher mas vivi na pele essa maldita guerra colonial que não valeu para nada, só valeu para perdermos os homens bons de Portugal, porque os maus estavam no governo descansados.. e sei bem a angústia porque o amigo passa, meu pai passou pelo mesmo..e quando a neta nasceu disse: ainda bem que é uma menina assim não vai para a guerra...Bem haja estar vivo, o senhor foi e é um grande homem, por ter vivido aquela guerra medonha...cumprimentos


De Sindarin a 5 de Abril de 2007 às 09:22
Olá meu amigo. Um fiel retrato da vida de militar. É natural mas difícil viver ainda hoje em sobressalto, foi essa a herança k nos deixaram (aos da nossa faxa etária) e para quê? Morreram mtos (inglóriamente) outros ficaram para trás com vidas desfeitas, outros seguiram em frente tropeçando, caindo, levantando a cabeça e para quê? Hoje (as colónias) ñ são um exemplo de "sucesso" com tantos interesses de tantos países e cntinuam a ñ saber com o k contar a não ser com a fome e a doença e a necessidade de pedir ajuda a Portugal k eles tanto queriam ver pelas costas irónico ñ é? Tantos sofreram tanta mãe chorou... Bem deixando de lado as tristezas e os pontos de vista (cada um com os seus) desejo-lhe do fundo do meu coração uma feliz e santa Páscoa para si e todos os k ama e tudo de bm na sua vida. Agora e para sempre. Um beijinho amigo


De Praia da Claridade a 6 de Abril de 2007 às 18:38
Um testemunho, de quem viveu uma guerra injusta para aqueles que foram obrigados a ir para lá e não mais esquecem aquilo que sofreram.
Felizmente, o meu Amigo José Lessa é um daqueles que pode testemunhar, passados 35 anos. Muitos outros a Guerra liquidou-lhes a voz para sempre !... Já não podem emitir a sua revolta, já não poderam viver ABRIL !...
Amigo José Lessa: com a minha solidariedade envio-lhe um grande Abraço.
Filipe Freitas


De maripossa a 11 de Abril de 2007 às 00:12
Amigo José Lessa,obrigado pela coragem de se lenbrar dos tempos menos bons da sua triste história,para si de glória por ser determinado,pelos outros que lá ficaram estarão em pansamento de todos nós,passados anos não vimos esses povos melhor depois da nossa saída,os interesses são realmente muitos,mas ainda bem que hoje não teremos mais homens a sofrer por esta guerra.
Amigo estive ausente derivado a não ter computador mas aqui estou.
Beijinho de amizade
maripossa


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